Exposição “Ato Contínuo” na Casa do Tatuapé

Coletivo Em Branco na Casa do Tatuapé / Museu da Cidade de São Paulo

De 15 de outubro a 31 de março de 2019, o coletivo Em Branco[1] vivenciou a experiência de habitar a Casa do Tatuapé[2] por meio do work in progress [trabalho em andamento]. Os artistas Adriana Rocha, Ana Michaelis, Celso Orsini, Cris Rocha, Patricia Furlong e Reynaldo Candia deslocaram temporariamente seus respectivos ateliês para o espaço expositivo, abertos a conectarem-se com a energia daCasae suas memórias, aproximarem-se das rotinas do bairro, interagirem de perto com o público que pode acompanhar todas as fases do processo artístico.

O resultado deste work in progress foi materializado na exposição Ato Contínuo que permanecerá aberta até 31 de março de 2019:

Adriana Rocha (São Paulo, 1959). Mar, 2018 (madeira de demolição e pintura em decalque / instalação sonora) / Série Horizontes Magos, 2017 (grafite s/ papel, 120 x 130 cm). A partir do fluxo contínuo de construção e destruição – marca registrada da história da nossa cidade – madeiras recolhidas de moradiasdemolidas e reconstruídas em alvenaria na periferia da cidade foram reutilizadas para aludir aum antigo baú de viagem, daqueles que acompanhavam os viajantes. Ao redor, a sala se construiu como memória dessa chegada, desse momento de transposição e de encontro com o desconhecido.

Ana Michaelis (Rio de Janeiro. 1962). Alma, 2018 (acrílica s/ gesso e fios). Imagens coletadas no arquivo fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo foram pintadas nas lâmpadas de gesso penduradas entre o emaranhado de fios. A instalação remete a uma reflexão sobre o poder memorial e afetivo da Casa do Tatuapé.

Celso Orsini(Itabira/MG, 1958).Sem título, 2018 (acrílica s/ metal espelhado, 110 x 230 cm) /Sem título, 2018 (óleo e acrílica s/ vidro, 30 x 20 cm cada). Partindo da chapa espelhada e do vidro como suporte, o artista pode captar imagens que foram pintadas em várias camadas, em espelhamento com a memória da Casa. O resultado são imagens abstratas que se encontram e se descobrem no espaço e na cor.

Cris Rocha (Porto Alegre, 1967). Resquícios, 2018 (vídeo de 2:42; desenhos s/ impressão digital / guache sobre cobre / backlight e matriz da gravura em metal entintada). Inspirada na luz que entra na casa escura, a artista imaginou a natureza do entorno, por onde passava o rio. As janelas são a moldura desta paisagem construída.

Patricia Furlong (Porto Alegre, 1955). PAIRIDAEZA, 2018 (reprodução fotográfica de folhas de jornal / terrários e vidros vazios/ Éden, 2018, acrílica s/ tela, 95 x 250cm). “Paraíso” vem do termo avéstico “pairidaeza” e significa jardim murado. A partir deste conceito, a artista reflete em seus trabalhos a violenta expansãodesta metrópole que terminou por emparedar a Casa do Tatuapé. Anúncios de Classificados pontuam seis diferentes décadas e mapeiam o crescimento urbano, enquanto os terrários representam os pequenos paraísos particulares. Em diálogo, a tela Éden remete à água, razão primeira da localização da Casa do Tatuapé, e também à desolação, ausência de luz e calor.

Reynaldo Candia (São Paulo, 1975). tocaia, 2018 (taipa, varetas de bambu, penas e livro década de 1950) / lúmen, 2018 (gesso e lâmpada led).

“Nos campos, trabalham os índios. São os “negros”. Uns, alugados nos aldeamentos, outros arrebatados ao sertão, violentamente, para que esta terra não pereça (…) Quem vai às selvas aprisionar indígenas – e não há quem não faça – não pratica um ato de violência: vai apenas buscar o seu remédio. Se não é possível arrebanhar negros na costa da Mina ou da Guiné, vai-se placidamente aos bilreiros e carijós, pois essencial é que por falta de braços, não venha a lavoura a perecer, com dramáticas conseqüências para a vida dos moradores do planalto.”(Texto retirado de“No tempo dos Bandeirantes”, de Benedito Bastos Barreto, 1948, p. 32, livro que faz parte da instalação tocaia).

Utilizando-se de elementos naturais encontrados nas redondezas, especialmente o barroe as pedras,o artista faz um recorte da história[1] da Casado Tatuapé ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre a versão oficial da História com a instalação tocaia. Ao final da exposição, os livros de taipa serão desmanchados e devolvidos ao seu lugar. No sótão, a instalação “lúmen” representa uma prateleira de livros feitos de gesso em meio à luz e força, na busca do conhecimento.

[1]A Casa do Tatuapé já serviu de vigilância contra os ataques indígenas no século XVII por localizar-se próxima ao Rio Tietê. De lá para cá, o rio foi retificado e a paisagem da região mudou drasticamente com o crescimento urbano que se deu ao longo de mais de três séculos.

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[1]O coletivo Em Branco teve início em 2004, como resultado do encontro de um grupo de artistas com o intuito de trocar experiências e debater ideias. A partir de então, parte deste grupo, cuja característica mais marcante é justamente a heterogeneidade de seus trabalhos, passou a realizar um circuito expositivo que vem se ressignificando desde então.

[2]Além da Casa do Tatuapé, também pertencem ao acervo arquitetônico do Museu da Cidade de São Paulo o Solar da Marquesa de Santos, o Beco do Pinto, a Casa da Imagem e a Chácara Lane no Centro da cidade, a Casa do Bandeirante no Butantã, a Casa do Sertanista no Caxingui, a Capela do Morumbi no Morumbi, O Sítio da Ressaca no Jabaquara, a Casa do Grito e a Cripta Imperial no Ipiranga, bem como o Sítio Morrinhos em Santana. O Museu da Cidade, por sua vez, está ligado ao Departamento de Museus Municipais da Secretaria Municipal de Cultura, também responsável pela OCA e pelo Pavilhão das Culturas Brasileiras, ambos no Parque do Ibirapuera.

[3]A Casa do Tatuapé já serviu de vigilância contra os ataques indígenas no século XVII por localizar-se próxima ao Rio Tietê. De lá para cá, o rio foi retificado e a paisagem da região mudou drasticamente com o crescimento urbano que se deu ao longo de mais de três séculos.

Catálogo: https://www.flipsnack.com/atocontinuocasadotatuape/em-branco-casa-do-tatuap.html