Arte, rua e memória
A proximidade com a Rua Maria Antônia atravessou diversas camadas da história de São Paulo. O loteamento da região remonta ao final do Segundo Império, quando a escravidão ainda não havia sido juridicamente abolida. Esse período coincide com a expansão do núcleo residencial no centro e com a implantação de infraestruturas modernas, como a iluminação a gás, o abastecimento de água encanada e as primeiras redes de saneamento. Foi nesse momento decisivo de transformação urbana e social que a Chácara Lane foi erguida.
Tal cenário contrasta com a complexidade atual do local: o Rio Augusta canalizado, duas linhas subterrâneas de metrô, a parte baixa da colina rasgada pelo Minhocão e a elevada densidade populacional viabilizada pela intensa verticalização. Soma-se a isso o alargamento da Rua da Consolação, de onde provém o ruído contínuo de carros e ônibus que, ao fundo, atravessa e define parte da paisagem sonora do lugar. Entre permanências e rupturas, a área se constitui como território de sobreposições, em que diferentes tempos urbanos convivem e se tensionam.
A exposição Picadilha, que homenageia os 25 anos de produção artística de Thiago Cons, entrelaça esses distintos tempos da cidade. Suas obras, em grande parte vinculadas ao grafite — linguagem fortemente presente na paisagem do entorno —, dialogam com o território e com suas camadas simbólicas, tensionando limites entre arte, rua e memória. Ao mesmo tempo, afirmam a representatividade de pessoas pretas, cuja presença e contribuição são fundamentais para uma compreensão sensível e crítica do presente, evidenciando narrativas historicamente silenciadas e reconfigurando o espaço urbano como campo de enunciação.
A Chácara Lane, unidade do Museu da Cidade de São Paulo, abriga o Gabinete do Desenho, voltado ao desenho como ferramenta do pensamento criativo e de leitura da cidade. Suas curadorias aproximam do público as obras da Coleção de Arte da Cidade e estabelecem diálogos entre o desenho arquitetônico e a conformação da metrópole, revelando-a como construção simultaneamente material e imaginada. Picadilha se associa a essa abordagem ao enquadrar a cidade enquanto forma e signo, superfície de inscrição de experiências, disputas e projeções coletivas.
Henrique Siqueira
Museu da Cidade de São Paulo
Núcleo de Curadoria
Marcos Cartum
Departamento dos Museus Municipais
Museu da Cidade de São paulo
Diretor