Eu era carne, agora sou navalha

“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje” –Ditado Iorubá

O “empurrar os conflitos para debaixo do tapete” não elimina o racismo. As questões étnico-raciais necessitam de debate e reflexão para que possam despertar a conscientização social. A superação do racismo é também uma luta contra a ideologia vigente (que acredita na inferioridade do negro ou no aspecto conservador do “mito da democracia racial”). 

Por essa razão propõe-se uma discussão sobre a história e a resistência negra a partir de exemplos vindos da organização de clubes sociais e associações, das manifestações artístico-culturais e das preocupações ligadas à educação. Nesse parâmetro, entram desde os jornais criados por homens e mulheres negros no século 20, passando por fotos e manchetes que mostrem o negro na grande imprensa, além de situações registradas pela imprensa que mostrem o “privilégio branco”. Nessa trajetória, percebem-se vazios. Optamos por registrar, mesmo sem documentos, a existência de algumas instituições que enfrentaram o processo de apagamento das memórias negras.

Tudo tem espírito

“Tudo tem espírito, desde um inseto até um boi, as plantas, os animais das terras e das águas” – Raoni Metuktire

A resistência também é imanência. Ou seja, a propriedade de ser substância ou essência de algo; ser sua interioridade em contraste à realidade aparente. Em São Paulo, os territórios indígenas – mesmo apagados pela história oficial ou referenciados somente em nomes de logradouros, monumentos e lugares – constituem-se em memória forjada pela narrativa do branco. Porém, a memória dos povos originários está lá mesmo quando negada ou não compreendida! Assim, a preocupação da presente mostra é fazer emergir esses territórios obliterados e discutir a situação atual dos territórios indígenas.

Alecsandra Matias
Curadora

©Raquel Santos, 2021