Infâncias em São Paulo: brincar, ler, estudar, no Solar da Marquesa de Santos.

A partir dos acervos do Museu da Cidade de São Paulo e de outros museus e arquivos públicos e privados, esta exposição apresenta um percurso por diversos temas e períodos da história das infâncias na cidade de São Paulo. Infâncias, no plural, reconhecendo as diversidades social, econômica e cultural registradas em fotografias, brinquedos e outros objetos e documentos dos séculos XIX e XX. 

Esse panorama permite olharmos a infância em diferentes registros: as políticas públicas, a tutela dos adultos, a escola, o trabalho e os momentos em que a infância escapa aos enquadramentos e afirma seu tempo do descompromisso. Assim, em todos esses registros, a infância é, ao mesmo tempo, objeto e sujeito, como se percebe nas fotografias de brinquedos e brincadeiras, entre o proposto pelos adultos e o inventado pelos pequenos.

Brincar, ler e aprender, tema da exposição no Solar da Marquesa de Santos, exibe brinquedos, fotografias e acervos escolares pesquisados nos mais significativos museus e arquivos nos quais encontramos registros da infância na cidade, incluindo as imagens de expressivas iniciativas públicas dirigidas à infância na cidade, como a construção de parques e bibliotecas a partir dos anos 1930.

Imaginação, fantasia, curiosidade, brincadeira e descompromisso são ideias em torno da infância desde que esta se definiu como uma idade autônoma em um lento processo que se consolidou no século XIX. Mas exclusão e trabalho também são realidades que povoam o universo das crianças, como se diferentes tempos da infância convivessem na nossa cidade em 2020. Assim, as diversas representações da infância, incluindo os brinquedos, essas miniaturas do mundo adulto, iluminam e espelham nossos projetos e sonhos, mas também nossas fragilidades como sociedade.        

Roney Cytrynowicz
Curador

Exposição Infâncias em São Paulo: brincar, ler, estudar, no Solar da Marquesa de Santos.
©Marcella Marigo, 2021

Infâncias em São Paulo: circulando nos espaços da cidade, na Casa da Imagem.

Quais são as representações da infância no acervo de fotografia do Museu da Cidade de São Paulo? Partindo desta indagação, esta exposição revisita o acervo, incluindo suas fotografias icônicas, e questiona que lugares as crianças ocupam nos registros fotográficos, começando pelas fotos de Militão Augusto de Azevedo na década de 1860. 

Por meio de um olhar que muitas vezes exige uma escala quase microscópica, encontramos uma infância que, mesmo nas margens, integra o cotidiano público da cidade desde o século XIX. Anônimos no burburinho urbano, acompanhando os adultos, circulando e trabalhando, em grupo ou sozinhos, meninos e meninas encontram seus espaços e buscam autonomia numa cidade em mutação acelerada.

A partir dos anos 1930, as fotografias expostas já têm a infância como foco e tema, e muitas das imagens constituem o registro de políticas municipais, como a construção de bibliotecas e parques públicos. Assim, tanto quanto documentos da história das transformações urbanas, as fotos são documentos de história da infância na cidade.

Nesse sentido, a exposição apresenta também uma seleção de fotógrafos que registraram diversas facetas dessa fase da vida. É na tensão entre as nossas projeções e exigências – de adultos, da sociedade – sobre as crianças e a infinita capacidade dos pequenos de escapar, espontaneamente, dos enquadramentos e das expectativas, ou de preencher os seus espaços de formas não convencionais, que essas fotos ganham uma narrativa. Diante do mais rigoroso enquadramento, eles desviam e reafirmam seu tempo e seu espaço próprios. Se a fotografia pode ser pensada como tensão entre o efêmero e o permanente, essa tensão se acentua nos registros da infância, tempo de passagem. Imaginação, fantasia, curiosidade, brincadeira, invenção, inocência… Ideias como essas circundam o universo por meio do qual significamos esses anos da vida, desde que esta se definiu como uma idade autônoma em relação aos adultos, em um processo que se consolidou no século XIX. Mas a tristeza, a solidão e a angústia também povoam o universo das crianças, além das questões objetivas da exploração do trabalho infantil e das situações de vulnerabilidade.

Esta exibição, que integra a exposição Infâncias em São Paulo, do Museu da Cidade de São Paulo, teve cocuradoria de Monica Caldiron e Henrique Siqueira, a quem agradeço pela generosa acolhida nesta Casa e por viabilizar esta abrangente seleção de imagens.

Roney Cytrynowicz
Curador

Exposição Infâncias em São Paulo: circulando nos espaços da cidade, na Casa da Imagem.
©Marcella Marigo
, 2021

Infâncias em São Paulo: arte também é para crianças (de zero a cento e poucos anos), na Chácara Lane.

A arte, como o brincar na infância, não tem limites predefinidos. Uma linha desenhada a lápis no papel pode transformar-se em um rosto, uma paisagem, uma flor-gente, um homem-locomotiva, um horizonte ou qualquer forma que a imaginação e a fantasia inventarem. A linha pode testar os contornos do seu suporte, criar perspectivas, sair do papel, da parede, compor objetos tridimensionais, traçar um horizonte, transformar-se em mar, céu, explorar o espaço.

Esta mostra, que integra a exposição Infâncias em São Paulo, do Museu da Cidade, é um recorte da Coleção de Arte da Cidade e consolida a retomada do Gabinete do Desenho na Chácara Lane, implantado em 2012, que valoriza o desenho como processo criativo.

A mostra está organizada em torno de dois eixos. No andar térreo, as obras partem da linha e das possibilidades do desenho, transitando pela gravura e por outras técnicas para a construção de perspectivas, da volumetria, da tridimensionalidade, da experiência dos materiais – dialogando com momentos significativos da história da arte presentes na Coleção de Arte da Cidade.

No primeiro andar, foram selecionadas obras com temas relativos ao universo infantil – como o brincar, animais e seres fantásticos – e à representação da infância, por meio dos diferentes registros da presença de crianças na Coleção. Associando a infância a criatividade, curiosidade e fantasia, são obras que buscam imergir na experiência e no universo de criação dos artistas que brincam com a tradição, o convencional, as técnicas, os materiais e os temas representados. É o quadrado que vira redondo, o carrinho de mão que vira trono, o telegrama que comunica que é, ele próprio, a obra de arte, e assim por diante.

Gabriela Rios, Roney Cytrynowicz, Vera Toledo Piza
Curadores

A Coleção de Arte da Cidade foi iniciada por Maria Eugênia Franco e Sérgio Milliet a partir dos anos 1940, na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, e é gerida pelo Centro Cultural São Paulo desde sua fundação, em 1982. A fundação da Biblioteca e o início da formação da Coleção integram um conjunto de iniciativas públicas municipais que são relacionadas à criação do Departamento de Cultura, em 1935, o qual implantou políticas voltadas à infância por meio da criação de parques e bibliotecas, registros expostos em outras duas Casas do Museu da Cidade que integram esta exposição: o Solar da Marquesa de Santos e a Casa da Imagem.

Exposição Infâncias em São Paulo: arte também é para crianças, brincar também é para adultos, na Chácara Lane.
©Marcella Marigo
, 2021

Infâncias em São Paulo: pequenos trabalhadores, na Casa do Tatuapé.

O Tatuapé, o Brás, o Belenzinho e a Mooca são bairros operários nos quais se desenvolveu a industrialização na cidade de São Paulo. Os edifícios de tijolos aparentes e as chaminés das fábricas são marcas perenes na paisagem e na memória de seus habitantes. 

A partir de fotografias conhecidas do acervo do Museu da Cidade de São Paulo e de outros arquivos, algumas delas icônicas da história de São Paulo, esta exposição propõe que olhemos as imagens retirando as crianças da situação de invisibilidade em relação à sua participação na história do trabalho e da industrialização da cidade entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX. Entendendo trabalho como uma atividade em troca da sobrevivência e de sustento próprio e da família, uma parcela das crianças trabalhava como operários em fábricas e circulava pela cidade ganhando seu sustento – mesmo que tenhamos dificuldade em enxergá-las nas fotos. 

Em um contexto diferente, o trabalho infantil foi comum entre as famílias imigrantes nas lavouras no interior do estado, mas, neste caso, os pequenos frequentavam a escola, mantendo uma jornada dupla, de trabalho e estudo. Além disso, a exposição mostra meninos pobres trabalhando como engraxates, vendedores de jornais, carregadores e outros pequenos ofícios urbanos. Engraxates descalços e vendedores de jornais sem frequentar a escola e sem serem alfabetizados. Nessas fotografias, a infância não corresponde às imagens que temos do mundo da escola ou da brincadeira, do descompromisso do tempo e do tempo do crescer rumo à idade adulta.A partir dos acervos do Museu da Cidade de São Paulo e de outros museus e arquivos públicos e privados, a exposição Infâncias em São Paulo apresenta um percurso por diversos temas e períodos. Infâncias, no plural, reconhecendo as diversidades social, econômica e cultural registradas em fotografias, brinquedos e outros objetos e documentos dos séculos XIX e XX, nos quais a infância é, ao mesmo tempo, objeto e sujeito, desde quando a infância se definiu como uma idade autônoma em um lento processo que se consolidou no século XIX. As imagens e as representações da infância contribuem para esclarecer e iluminar nossos projetos, sonhos e fracassos como adultos, como cidade e como sociedade.

Roney Cytrynowicz
Curador

Exposição Infâncias em São Paulo: pequenos trabalhadores, na Casa do Tatuapé.
©Marcella Marigo, 2021

Infâncias em São Paulo: pequenos imigrantes, na Casa do Bandeirante (Casa do Butantã).

Quando pensamos no processo de imigração para o Brasil, da Itália, de Portugal, da Espanha, do Japão, da Alemanha, do Oriente Médio, da Europa Oriental e de outros países e regiões, em geral, imaginamos adultos e famílias vindo, poucas vezes lembrando que as crianças também vieram, com suas próprias inquietações, indagações, curiosidades e esperanças.

A partir de diversos acervos, esta exposição procura mostrar os registros que marcam o percurso dos pequenos imigrantes, meninos e meninas, que chegaram ao Brasil: os passaportes com as fotografias familiares que documentam o momento suspenso entre a decisão de emigrar e a longa viagem rumo a uma terra desconhecida; os álbuns de fotografia de famílias, os álbuns oficiais sobre imigração e os realizados por comunidades, que mostram cenas de um cotidiano já assentado no Novo Mundo; e também as cartilhas escolares que registram os esforços das crianças ao viverem entre duas culturas, entre o país e a identidade de origem e a sua nova terra. Por fim, a representação da imigração, e também da migração dentro do Brasil, em obras de arte emblemáticas dos processos de deslocamento dentro e fora do País, retratando o drama, o desenraizamento, a esperança, as novas raízes.

Pequenos imigrantes é parte da exposição Infâncias em São Paulo, que apresenta um percurso por diversos temas e períodos da história das infâncias na cidade de São Paulo. Infâncias, no plural, reconhecendo as diversidades social, econômica e cultural registradas em fotografias, brinquedos e outros objetos e documentos dos séculos XIX e XX. 

Se as representações da infância esclarecem e iluminam nossos projetos e sonhos como adultos e como sociedade, os registros desta exposição tornam esse objetivo ainda mais cristalino ao mostrar as várias formas como as crianças imigrantes se tornaram –  mantendo suas identidades diversas – parte da cidade e do País.

Roney Cytrynowicz
Curador

Exposição Infâncias em São Paulo: pequenos imigrantes, na Casa do Bandeirante.
©Marcella Marigo, 2021